dimanche 26 avril 2009

Da loucura, uma parte


Nossa cultura é paranoizante. Ensina que se deve desconfiar até da própria sombra.

"Todo conhecimento é paranóico." (Lacan)

Se, quando chegamos a uma conclusão por nosso raciocínio, não teimássemos que temos razão ainda que pareça estranho e diferente para as outras pessoas nenhuma ciência se desenvolveria. Se Freud não fosse teimoso e um pouco paranóico a Psicanálise não teria sido criada ou descoberta por ele. É apenas o excesso que caracteriza a insanidade, algo mais pra quantitativo que qualitativo. No entanto, um mínimo de desconfiança, paranóia serve como proteção no mundo atual, pois não se pode confiar em tudo e em todos. A diferença está na intensidade da convicção, não na qualidade do pensamento. Ou seja: não me é possível concordar com a teoria das estruturas imutáveis de perverso, psicótico e neurótico. Contudo percebe-se nitidamente funcionamentos de modos diversos entre os classificados como neuróticos, psicóticos etc. São nuances subjetivas e peculiares do psiquismo funcionar, até hoje extremamente misterioso e desconhecido amplamente. Eu, como ser, o que sou? Um monte de matéria agregada lutando contra certa entropia através de minha "escrevidão"? Vivo por um ideal de sociedade transcendente a minha existência, o que também poderia ser nominado lunatismo, e este projeto ideal rejeita a desigualdade, a discriminação, a injustiça desavergonhada, a imbecilidade dos corruptos governantes e poderosos. Mas eis que sonhos e ideiais são incompatíveis com a concretude da realidade, que absurdo!

"É preciso ser Werther ou nada" (Camus)

Bleuler pensava que o delírio era secundário a perdas de significações e símbolos em termos mentais. Penso: como essas perdas começam a se manifestar antes do delírio? O pensamento desorganiza, foge toda hora, os fatos perdem a ligação entre si, a associação entre signos e significados torna-se fraca..., ocorre um ensimesmamento progressivo, isolamento social até que se desliga da realidade social.

"Gosto daquele que sonha o impossível" (Goethe)




A história de Clarissa Dalloway, personagem de Virgínia Woolf, parece uma novela. Pura descrição de pensamentos e algumas falas. Especulações de pontos de vista diferentes. V.Woolf encarna com seriedade seus personagens e é muito boa nisso. Dá a impressão de que viveu mais na ficção literária que na realidade. Ela se suicidou com quase sessenta anos de idade, mas tinha cabeça de jovem imatura no cotidiano concreto, embora conseguisse criar sábios e uma deversidade de personalidades em suas histórias. Possuía muito conhecimento, embora sentisse estranheza e perplexidade com sua vida.



"Tel est la vie des hommes: quelques joies très vite effacées par inoubliables chagrins... Il n'est pas nécessaire de le dire aux enfants." (Marcel Pagnol in "Château de Ma Mère)






Sou um tempo desregrado
A prescrutar os vãos do dia
Costurando sons e lembranças
Sonhos estranhos, elaborados
Fazendo brilhar a tênue magia
Das miúdas esperanças
Resto do universo acabado
Matéria reduzida a energia
Voltando a ser criança
Brincando de fantasia

"É monstruoso dizer-se que o artista não serve pra humanidade. Ele sempre é o transcendentalista que passa a raio X os nossos verdadeiros estados de alma." (Anais Nin)

De fato,da chuva de ilusões desta máquina capitalista a nos moer não há como esvair-se com integridade autêntica, sejam comunistas, professores, benfeitores, falsários, publicitários, artistas. A redenção mostra-se inatingível, mas a batalha é necessária, dura e ingrata. Não há realidade paralela a não ser a da solidão desesperada e exaustiva do surto psicótico, e assim o é na vida, na arte, na morte.

por: Tania Montandon

mardi 24 mars 2009

Internetadas




Calafrios pelo corpo,
tremor nas extremidades.

A velha caneta e o papel,
saudades.

De texto em texto,
hipertextos...

De link em link,
hiperlinks...

Outra aba, outra janela,
o tempo escoa, voa, some...

A materialidade da existência dissolve-se
no tráfego intenso das idéias e estímulos tantos.

Chega a hora de dizer:
- Saia da tela, dê-me um abraço, amigo dito leal!

Emoções mediadas por luz, chips,
ótica falseada já é muito descaso.




Grama possui cheiro, testa-me o olfato.
Textura, terra, mãos...

Pra dizer com segurança
que o virtual só engana em potencial.

Longe está de substituir a essência real
do tudo isso que julgo ser a experiência presencial.


samedi 7 mars 2009

Estudando a virtualidade II



Muito antes do advento comercial da internet, já em 1984, o livro Neouromancer de Willian Gibson, trazia consigo o termo "ciberespaço" (ou cyberspace). Hoje em dia usa-se o termo como sinônimo de internet pelo fato de ser especialmente na rede que a maior parte das características do ciberespaço se manifesta, como realçar os fluxos de informações do mundo inteiro, ultrapassando fronteiras e independentes de latitudes ou longitudes geográficas e em velocidade fascinante. Essa teia que entrelaça as multifontes informacionais através de meios de telecomunicação unida à informática, incluindo meios digitais e analógicos, em funcionamento local, regional ou mundial, ou seja, toda a parafernália - televisão, rádio, celulares, telefones convencionais, etc - que usa a infraestrutura de cabo de cobre, fibra ótica, ondas de satélite ou rádio, organizados em rede tendo seus terminais de comunicação gerenciados por computadores formam o ciberespaço. Este, composto pelo fluxo de meios de comunicação que relaciona os mais diversos de tipos de usuários 'virtuais', que ao contrário do que se diz, não se opõe ao real e sim aponta o que é potencial. "A palavra virtual vem do latim medieval virtuale, significando o que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual. Provém daí seu segundo significado como algo suscetível de se realizar; potencial. Na filosofia escolástica é virtual o que existe em potência, não em ato, resultando numa terceira referência à virtual como o que está predeterminado e contém as condições essenciais à sua realização" (Rey, 1998:29)


Como exemplo desse conceito, numa obra de arte como as pinturas do Renascimento Italiano o estudo das leis de projeção óptica realizam o processo de transposição do espaço real (tridimensional) para o espaço virtual (bidimensional). Aqui não se pode deixar de considerar a idéia da Mimésis(representação da realidade) que dominou a criação de imagens por mais de quatro séculos e motivou o surgimento de novas formas de representação da arte - televisão, fotografia, cinema... O virtual nesse exemplo é somente a ilusão de três dimensões causada intencionalmente pela profundidade do campo visual estudado e sugerido pela obra de arte.


Sobre o Ciberespaço, define Gilbertto Prado: "Este poderia ser o lugar, a zona intermediária, o no man´s land onde a tecnologia encontra a rua. Um tipo de estrada consensual experimentada por milhões de operadores conectados - vizinhos virtuais - , cada dia, nesse espaço que eles mesmos criaram, para uma visão simultânea do mundo, inscritos no tempo real da emissão e recepção" (Prado, 1997:43 (2))
No entanto, não se pode dizer que a virtualização seja um desaparecimento ou ilusão. Conforme Lévy, ela é uma dessubstancialização que se inclina na desterritorialização, num efeito Moebius, passando sucessivamente do privado ao público, do interior ao exterior e vice-versa. Como uma abstração da extrema concretude da realidade visível. Lévy afirma não ser um fenômeno recente, pois a espécie humana fora construída por virtualizações - gramaticais, dialéticas e retóricas. O processo virtualizante ocorre com a complementação do que é subjetivo através da influências dos dispositivos técnicos, semióticos e sociais no funcionamento fisiológico e o que é objetivo através dos efeitos dos atos subjetivos na construção do mundo. O real, o possível, o atual e o virtual são complementares e possuem uma dignidade ontológica equivalente" (Lemos, s/d)


A virtualização é necessária no ciberespaço para possibilitar o acesso e a troca de dados nos meios de relacionamentos entre indivíduos através das interfaces, que são intrinsecamente virtuais. Assim, torna-se viável que um objeto real seja representado por meios digitais ilusórios porém que mantém com eficiência suficiente a potencialidade para o objeto virtual ser entendido como se fosse o real original, como a pintura faz.
"A Informação é uma virtualização. Se um acontecimento é retratado pelos media, essa circulação corresponde a uma virtualização do acontecimento, sob a forma da informação. Neste sentido, uma informação não é destruída pelo seu consumo justamente por ser sempre "virtualizante". A utilização/recepção da informação é a sua atualização, já que somos nós que damos sentidos a ela. Nós a atualizamos". (Lemos, s/d)

O ciberespaço atualiza-se a cada dia com inúmeras inovações e facetas utilitárias, crescendo em grande proporção nos últimos anos. Portanto, passou a ser um elemento importante no cotidiano e necessário principalmente para os habitantes urbanos para melhor se adaptar e entender o presente fluxo de informações nas interatividades e integração maior com a linguagem e novos conceitos.

"Das relações do indivíduo com o Ciberespaço surge a cibercultura, que nas artes culmina com a utilização de meios eletrônicos por parte dos artistas, o que podemos chamar de Ciber-arte, cujo exemplos são muitos: a video-arte, arte-robótica, telepresence art, ASCIIart, Tecno-body-art, Web Arte entre outras experiências, como a música eletrônica, sendo hoje atualizada para a música "tecno". A Ciber-arte, desde que surgiu em meados dos anos 70, sempre teve objetivos de conectar artistas de diferentes partes do globo e dar uma maior importância ao processo de criação do que ao produto final ( Lemos, s/d).




O ciberespaço é um só, independente de onde esteja o indivíduo que deseja acessar determinada informação, que também independe do espaço geográfico de onde provém, pois o procedimento é sempre o mesmo. O que o mantém são os interesses em comum e essa trama pra possibilidade de trocas de acessos a dados em todo o mundo, assim como o constante acesso e busca de vínculos de relacionamentos pelos usuários, constituindo, em consequência, comunidades virtuais também.

por: Tania Montandon

referência de leitura:
http://www.fabiofon.com/webartenobrasil/texto_qehwebarte.html
http://www.fabiofon.com/webartenobrasil/texto_ferramentas.html
http://www.fabiofon.com/webartenobrasil/texto_ciberespaco.html
http://www.fabiofon.com/webartenobrasil/texto_arquitetura.html
http://www.fabiofon.com/webartenobrasil/texto_participa.html

mardi 24 février 2009

O ultra BBG - Big Brother Globalizado




Google disse : Privacidade Completa Não Existe

Um casal em Pittsburgh cujo advogado reclamou que a visão das ruas pelo Google Maps é uma invasão ousada e imprudente de privacidade e perdeu o caso na 'justiça'.

Aaron and Christine Boring processaram a Internet, alegando que o Google "desrespeitou de forma significante seus interesses privados" quando câmeras de visualização da rua captaram imagens de sua residência além da marca registrada como "propriedade privada". Reclamaram que a invasão causou sofrimento mental e conflitos de valores em sua casa. Requeriram vinte cinco mil dólares em danos e que as imagens fossem retiradas do site e destruídas


Ironicamente, o caso ficou ainda mais público e divulgado com a reclamação e agora a empresa Allegheny County's Office of Property Assessments inclui uma foto da casa em seu Web site.

As imagens foram retiradas do site, porém Google alegou que fotografar em estradas privadas é legalizado, argumentando que privacidade não existe mais nesta era de satélite e imagens aéreas.

http://news.cnet.com/8301-1023_3-10166532-93.html
http://www.thesmokinggun.com/archive/years/2008/0730081google1.html


Gosta da idéia do Google Earth? Implemente o seu:

"Plugin do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE) para o software Google Earth que traz diversas informações e localizações de todos os municípios do Brasil. Possui detalhes, fotos, destaques sobre lugares e locais famosos ou importantes.

Como instalar?

Abra o Google Earth, siga para o menu principal, vá em Arquivo(File) e em Abrir(Open), selecione o plugin salvo no computador e clique em abrir,."

http://epifannias.blogspot.com/2009/02/ibge-para-google-earth.html

lundi 9 février 2009

Sobre o filme "O escolhido" - The chosen, Chaim Potok's



The Chosen- wedding scene


O conflito entre os protagonistas Danny Saunders(brasileiramente Daniel ) e Reuven Malter  possui razões religiosas e ideológicas. O filme exibe dois grupos judaicos que se divergem, sendo um conservador e radicalmente tradicional e o outro mais liberal, político e científico. Essa diferença cultural de ideais e crenças é o principal fator desencadeador do conflito no filme.

Daniel é filho de um líder rabino do grupo de judeus conservador. Pela tradição, esperava-se que tomasse o lugar de seu pai e liderasse a décima geração de sua cultura hassídica. No entanto, o menino cresce e percebe que algo de seu íntimo não concorda com todos os papéis que foram predestinados a ele. Começa, então, a se questionar, questionar sua cultura e torna-se ansioso por ampliar seus conhecimentos, interessando-se pelo estudo da mente, do inconsciente, da Psicologia.

Já Reuven é filho de um professor da cultura liberal, que defendia o sionismo e o estudo hermenêutico da Bíblia. Os dois, que no início odiavam-se, ficam amigos e Reuven passa a achar curioso e interessante conhecer e entender essa cultura tão diferente da sua, tão diferente de tudo o que lhe fora ensinado. Os dois afeiçoam-se e compartilham as diversidades e dúvidas que surgem em relação à vida e tudo o mais que perturba essa fase típica da juventude.

Daniel e Reuven desenvolvem essa amizade a partir da identificação com as semelhanças e interesse em conhecer as diferenças entre eles. A convivência foi fundamental para que amadurecessem e ampliassem a tolerancia e a solidariedade para que pudessem aceitar melhor as discórdias entre as pessoas e melhorar sua capacidade de empatia para com os sofredores.

Perceberam que o ser humano precisa desenvolver, além do cérebro, o coração também, o que ficou bem interpretado e demonstrado pelo personagem Daniel.

"Mentes brilhantes geram conflitos. É preciso educar também o coração." Buda

por: Tania Montandon

mardi 27 janvier 2009

Estudando a virtualidade


REAL E VIRTUAL





"fotografia, o primeiro instrumento automático de representação, substituindo o olho humano e fazendo crer ser possível substituir o experimentável (o real) pela sua imagem (virtual). O cinema, adicionando o fator tempo a esta representação, potencializou esta ilusão."

O desenvolvimento da informática subverte este jogo ao trabalhar o elo entre imagem e objeto em dois sentidos, seja partindo do objeto para obter sua digitalização, ou iniciando com a informação digital para engendrar imagens virtuais.



Os objetos, manipulados através da programação, que poderá lhes conferir novas formas, alterações de textura e iluminação e, principalmente, transformações ao longo do tempo (animação) disponibilizam a experimentação de um espaço intermediário entre o projeto (antes só existente na imaginação) e o objeto (realidade como a conhecemos ou esperamos atingir).

A experimentação tornou-se a tal ponto cotidiana que a imagem deixa de ser representação para se tornar “presentação”. Não é apenas figurativa, mas também funcional. A hipertrofia da imagem conduz ao seu apagamento, à sua absorção como algo inerente à nossa existência, por tornar-se mais um dos elementos bastante cotidianos, sem uma fração do encantamento místico com que se revestira ao longo de séculos.

O virtual não pretende aí substituir o real, mas dotá-lo de uma extensão. O objeto real passa a incorporar esta extensão adquirida pela simulação, mesmo que ela não esteja mais visível. O virtual não substitui o real, mas torna-se uma de suas formas de percepção, num misto em que as duas entidades são requisitadas simultaneamente.






A realidade virtual é um neo-ambiente gerado por algum tipo de tecnologia: cinema, televisão, video-game e computador ou tecnologia alienígena.

A diferenciação entre realidade virtual e "realidade"→ aspectos formais , contrastes, diferenças são extremamente sutis, limitadas

Há a construção de um neo-ambiente a partir do próprio imaginário popular, inspirados em memórias e referências coletivas (nazismo, gladiadores, publicidade, "Hollywood", etc)

A visão de virtualidade apresentada pela filosofia contemporânea → virtual não se contrapõe ao real mas sim o complementa.

A virtualização do texto, segundo nos mostra Pierre Lévi em suas pesquisas, é tão antiga quanto o texto; é a leitura que faz o texto se tornar real. Conhecimentos, vivências , imagens, palavras, trechos são tecidos, dobrados, amarrotados, emaranhados na busca do significado pra isso.

Ao praticar o ato de ler, fazemos a relação com o que temos na memória, o que já vivemos, conhecimentos de outros textos, outras fontes e o que elaboramos do que surge de dentro do próprio texto. =>relações hipertextuais, muito antes de surgir o PC a mídia já se sobbressaía no campo da comunicação, existia a digitação, evoluída da datilografia e, agora, a quase imprescindível internet ( rede entre pessoas, objetos, conhecimentos, imagens, incontáveis interligações se pode destrinchar deste pequeno termo). Tudo isso abre inúmeras possibilidades para desdobramentos outros.



balada no second life


''As passagens do texto mantêm virtualmente uma correspondência, seguindo ou não as instruções do autor'

Mas podemos seguir o direcionamento apontado pelo autor ou fazer desvios e inserir outras formas de ancorá-lo que, pelo fato do texto sempre possuir as brechas das entrelinhas, amarramos a outras pontas clandestinas até então e levando a semânticas outras.

trabalho de ler → desdobrar o sentido
"O espaço do sentido não préexiste à leitura. É criado por nós mesmos, à medida que viajamos sobre ele, mapeando-o."


Também buscamos captar o sentido intentado pelo autor, juntando ao que já temos de conhecimento de outros discursos, imagens, afetos para criarmos nossa própria visão idiossincrásica do texto e disso não há como fugir. Nossa visao do mundo, o modo como pensamos, nossos projetos influenciam nessa trituração, rasgamento e desdobramento do texto ao se fazer a leitura. O texto passa a fazer parte da construção e desenvolvimento de nossa subjetividade que, a partir daí, poderá render outros textos e assim por diante.

É lendo, olhando, ouvindo que nos abrimos na procura de um sentido que provém de "outro"

Trabalhando, construindo, desdobrando, destruindo, reelaborando em cima do texto é que fazemos o significado no qual habitamos.

"O advento da escrita acelerou o processo de artificialização, exteriorização e virtualização da memória que teve início com o despertar do homem."

• virtual → potencialidade de realização, contraditoriamente também podendo ser determinismo de que a realização da ação não é só possível mas, também inexorável.
→ ligado a tecnologia, mais precisamente à informática e à eletrônica enquanto processo de simulação.

O surgimento da linguagem permitiu o desenvolvimento do conceito de temporalidade. Como o tempo só existe completamente de modo virtual.

Assim, a linguagem é uma das mais intensas formas virtualizadoras do ser humano.
Quanto mais desenvolvida → maior seu poder de virtualização.

"As linguagens humanas virtualizam o tempo real, as coisas materiais, os acontecimentos atuais e as situações em curso. Da desintegração do presente absoluto surgem, como as duas faces de uma criação, o tempo e o fora-do-tempo, o averso e o reverso da existência. Acrescentando ao mundo uma dimensão nova, o eterno, o divino, o ideal têm uma história. Eles crescem com a complexidade das linguagens. Questões, problemas, hipóteses abrem buracos no aqui e agora, desembocando, no outro lado do espelho, entre o tempo e a eternidade, na existência virtual."
J.F.Lyotard

dimanche 11 janvier 2009

OLHAR Dois tipos de poder

As discordâncias entre instâncias da República apontam para a força explicativa dos conceitos de Foucault num cenário em que o divórcio entre povo e Estado parece fadado à crise de legitimidade


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jpaulo.cunha@uai.com.br

"Durante muito tempo, todas as estratégias políticas pareciam voltadas para a conquista do poder. As diferenças sociais, de classe e de condição de vida estariam submetidas a um jogo maior, a detenção do poder político e econômico. Com o poder na mão ou, em outra estratégia, derrubado o poder da burguesia, o horizonte se abriria para experiências mais libertárias e democráticas. O poder era o inimigo. O poder, por mais repetitivo que pareça, podia tudo. Essa concepção era capaz de unir a esquerda e a direita. Os dois lados do espectro político tinham visão unitária e monolítica do poder. Eles lutavam pelo poder.

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O filósofo francês Michel Foucault ensinou a desconfiar do poder, mas também a levá-lo a sério e a não perdê-lo de vista

Era assim que os mais importantes filósofos do século passado viam a estratégia política por excelência. Tratava-se de localizar as brechas do poder, fraturá-lo em oposição, guerrilhas e combate aberto para, depois, tomá-lo nas mãos e mudar a ordem do mundo. Tudo emanava do poder. Pensadores como Jean-Paul Sartre (1905-1980), por exemplo, asseguravam que a luta política passava necessariamente pelo partido comunista. Por trás dessa defesa, mais que a afirmação de um ponto de vista ideológico, estava uma concepção do poder como um todo. O que hoje chamamos de visão macro da sociedade.

"Para Sartre e os marxistas, a única crítica política era a crítica ao poder do Estado capitalista. Toda a opressão se dava em bloco. O capitalismo e sua visão de sociedade se realizavam enquanto projeto globalizante e que, por isso mesmo, precisava ser atacado também de maneira global. O olhar macro sobre a sociedade tinha ganhos evidentes na compreensão dos rumos políticos das nações, mas parecia não enxergar os detalhes. E, como se sabe, Deus, o Diabo e os ditadores moram nos detalhes. Foi exatamente nesse momento que o Michel Foucault (1926-1984) entrou em cena.

Sua concepção de poder ia na contramão do reino mágico do macro. Ele defendia o que nomeou como a microfísica dos poderes. Em primeiro lugar, poder não é uma coisa, mas um procedimento, uma disciplina. Não é algo dado, mas instância que se cria e se transforma com o jogo dos sujeitos em cena. Não se exerce sempre de forma unitária (o Estado manda e o cidadão obedece), mas tem astúcias e narrativas singulares e minudentes. O poder está em toda a parte. E precisa ser combatido em todas elas. A política é algo mais difícil do que parecia.

Filósofo brilhante, Foucault, no entanto, foi considerado por seus contemporâneos como fraco em política. Era inaceitável que um pensador como ele, libertário e crítico da burguesia, não se alinhasse com a esquerda e se perdesse no ataque a poderes microscópios. Racismo, gênero, homossexualismo, censura, vigilância, religião e outros temas que apontavam para exercícios de micropoderes eram, para os partidários da noção convencional de política, no mínimo uma perda de foco. Além disso, Foucault errou em apoios pontuais, como aos aiatolás do Irã, na figura de Khomeini, no fim dos anos 1970.

No entanto, a história parece ter dado mais uma volta e trazido Foucault de novo à baila em questões de política e poder. É cada vez mais claro que os poderes estão brotando a todo momento. É nítido que os novos focos de poder reescreveram a história política contemporânea. É evidente que deter o poder de Estado, por si só, não é mais garantia de nada. É transparente que as novas lutas pontuais e microfísicas são mais eficientes na crítica ao poder que todas as bandeiras liberais e de esquerda. A contemporaneidade política parece ser foucaultiana.

TODO E AS PARTES

Isso não é nem bom nem ruim. É um fato. A recente trombada entre integrantes do Judiciário e da hierarquia da Polícia Federal (PF), com o afastamento do delegado encarregado da Operação Satiagraha, e o acordo entre poderes republicanos (presidentes da República e do Supremo Tribunal Federal) mostram, no entanto, uma cisão entre duas concepções de poder, para prejuízo da cidadania.

Na opinião pública, hoje, há certeza de que muitas ações necessárias devem emanar da liberdade de ação de órgãos responsáveis por políticas de Estado, entre eles a PF. Quando a população vê a instituição agir com independência, sente que há um novo poder sendo gerado a seu favor. O fato de a centralidade do poder ser atacada em nome de ações particulares é um avanço da concepção foucaultiana em direção ao entendimento da população. Não será mais necessário esperar que o governo central tome decisões sobre tudo. A competência em defender o bem público não precisa estar no coração do Estado.

Assim, um governo, seja ele de neoliberal ou social-democrata, se submete a uma nova ordem de exercício da vontade política. Os enfrentamentos, de agora em diante, tendem a se dar de forma múltipla. Pode ser, por exemplo, numa ação direta de grupos homossexuais que lutam por reconhecimento no âmbito do direito de família. Ou na defesa de cotas para minorias em universidades. E até mesmo em favor de bandeiras ecológicas. Até ações como a luta pela reforma agrária, criada no seio de uma concepção marxista, ganham hoje outra dimensão, ao se aliarem com novas formas de organização da produção no campo.

Quando alcançam a dimensão do Estado, nem por isso essas demandas espontâneas perdem a inspiração plural. Para que se tornem realidade, vale tanto o mando do presidente como a ação local de um promotor ou o sucesso de uma manifestação popular. O universal é o valor, não a forma como ele se realiza na vida social. Depois de inspirar a filosofia, a psicologia, a história e a medicina, talvez o século 21 venha, finalmente, a se mostrar devedor de Foucault também em política.

Um exemplo rico dessa forma de motivação é a chamada Lei Seca, que proíbe o consumo de qualquer quantidade de álcool para quem quiser dirigir automóveis. A primeira atitude foi vertical (tradição brasileira de civilizar pela lei, e não o contrário). Nesse momento, todos se acharam no direito de criticar a lei em nome de valores muito menores, como a vontade pessoal de zoar a cabeça e o faturamento de donos de bares. No entanto, a verdadeira ação política veio das pessoas, que se organizaram para defender um ganho real de dignidade.

O que se passa hoje no Brasil é o triste divórcio entre uma concepção autoritária de poder e a defesa do exercício da crítica maneira múltipla e plural, como se a verdade viesse das bordas da sociedade para o coração do Estado. Da vida das pessoas para as instituições criadas para representá-las. Ao afastar o delegado encarregado da ação da PF, o Brasil se mostrou partidário de uma concepção ultrapassada e concentradora de poder. A sociedade, no entanto, parece ter entendido a lição e não deve abrir mão de sua resposta. Vai acatar, mas não vai permitir ser desacatada de novo.

A crítica ao poder é também uma forma de alerta."


fonte: http://www.estaminas.com.br/em.html
caderno Pensar, Sábado, 19 de julho de 2008